Filha de gente humilde e lutadora, era um regalo ver aquela menina com aqueles vestidinhos de chita, chinelos, a jogar ao pião, a brincar à macaca e a falar com as flores e pequenas plantas, como se fossem meninas como ela.
Naquele meio foi crescendo, mantendo, contudo, o ar inocente, a frescura, e as faces rosadinhas que o copinho de Vinho do Lugar com que moderadamente acompanhava as refeições, realçava. O almocinho e o vinhinho eram fruto do esforço de seus pais no amanho das terras.
A saúde ambiental daquele meio constituiu um atractivo para a visita de muitas pessoas, acabando, algumas delas, por aí se fixarem, abrindo modernas lojas e instalando vários ramos de comércio.
Isso despertou a curiosidade da nossa menina em querer conhecer outras terras e outras pessoas. Partiu para a descoberta. Num dessas terras foi convidada para aderir ao clube Avistando o Futuro que mais não era do que o encontro de pessoas com hábitos e maneiras diferentes de estar na vida, para discutirem ideias quanto às tendências a seguir no futuro, nos vários domínios da vida quotidiana.
Mantendo embora a mesma jovialidade, e um ar menos inocente, a menina pavoneia-se, por todos os lugares onde outrora brincou, mostrando o seu bom gosto nos sapatos de tacão alto, vistosos vestidos de seda. Substituiu o consumo do Vinho do Lugar por outras bebidas caras, importadas dos sítios onde alguns membros do clube viviam.
O pior é que a nossa menina comprava os vestidos, os sapatos, os perfumes, nas melhores casas, mas ficava a dever. Com aquela carinha ninguém lhe recusava nada. Porém um dos comerciantes não se deixa seduzir, encosta-a à parede e dá-lhe um prazo para pagar o que deve. O diacho é que isto se veio a saber por outras terras, e logo apareceram pretendentes que se prontificaram a pagar os seus calotes. Alguns deles eram até uns parentes afastados.
Não sei se a menina se recolheu para um período de reflexão, se teve vergonha de ceder aos pretendentes, que não queriam ir de mãos a abanar, ou se temeu as consequências de aceitar de uns e não aceitar de outros. Finalmente , parece que preferiu seguir o conselho de membros do clube e expondo-se noutros lugares. Aceitou as melhores contrapartidas, mesmo sabendo que estava a ser usada. Nem por um minuto pensou que aquela jovialidade não durava para sempre e que, depois de adorada, idolatrada e amada, será descartada e abandonada em qualquer rua, mendigando o pão de cada dia.