A frase de João Chagas expressa bem o quanto os portugueses, nesse início do século XX, ignoravam as belezas do seu próprio país: “Esta carta está decidida desde Setembro! Mas durante esse mês de férias praticámos uma façanha milagrosa: descobrimos Portugal. Foi uma verdadeira viagem de núpcias com a pátria! Caramba! Que maravilhoso País! Como a gente passa a vida ignorando a beleza da própria pátria!”
Criado por vontade de muitos progenitores em 1911, teve por missão primeira levar a boa nova além-fronteiras: A Nova Ordem governava. O País estava apaziguado.
Deram-lhe um lugarzinho num cubículo – a 11ª Repartição onde se juntou com a Propaganda.
No discurso da inauguração da Repartição, João Chagas – uma figura de destaque do regime - defendeu que aquilo seria uma rés pública.
Atrofiado entre outras actividades que promoviam a imagem da nova ordem, como o Futebol, o Fado, as Bandas Militares e outros empreendimentos, nunca o Turismo atingiu a maior idade, encostado ora a um canto, ora a outro. Mais tarde mudaram-no de cubículo, travestiram-no e juntaram-no à informação, sob a tutela do SNI, pelas mãos de António Ferro. Tal como a 11ª Repartição, também esta entidade tinha por finalidade a divulgação da marca do Novo Estado, encavalitada no Turismo, se lhe desse jeito. Só decorridos alguns anos é que se reconheceu que o fenómeno turismo, somado às remessas de emigrantes , ocupava o terceiro lugar na economia, sendo proclamado pelos eruditos que entretanto apareceram, como sendo um factor de equilíbrio da Balança de Pagamentos. Como as remessas acabaram, juntaram-no aos “made in Portugal” para que a exportação lhe desse um empurrãozinho. Afinal, não é preciso ser nenhum catedrático para promover vinhos, queijos, calçado, sedas, high-tech e, já agora, destinos turísticos. Basta usar o novo vocabulário “experienciar, vivenciar, contratualizar” ao qual já não me adapto, para passar por um entendido na matéria.
Berço de oportunidades para construir, inovar, fazer girar a riqueza, para criar postos de trabalho directos e indirectos e, também, gestação de muitos sonhos, alguns dos quais sem pernas para andar, criação de Egos e Super-Egos, e Experts que sabem absolutamente tudo, nunca foi reconhecida ao Turismo a sua real importância. Vive-se, nas decisões que ao Turismo respeitam, um ambiente de obesidade mental.
Ramo importante do Turismo é a Hotelaria. Tem sabido adaptar-se às novas exigências e expectativas , evoluindo no sentido de criar ambientes propiciadores de experiencias únicas, que surpreendem os clientes pela positiva deixando-lhes a vontade de voltar se o ambiente externo os não desiludir. Dada a complexidade, a lei estabelecia que a direcção de um estabelecimento hoteleiro de 3 ou mais estrelas devia ser assegurada por um profissional com a categoria de Director de Hotel, graduado em direcção hoteleira. Atenta à constante evolução, pretendeu a Associação destes profissionais discutir com a tutela novos conteúdos dos cursos de graduação. Qual não foi o espanto dos dirigentes da ADHP quando, em Janeiro deste ano, o SET transite que a direcção de hotéis deixava de estar regulamentada.
Só um governante resolveu criar um Ministério de Turismo, dado tratar-se de uma actividade aglutinadora de e transversal a muitas outras, mas como, se calhar, esta foi das poucas boas ideias que teve, não sobreviveu muito tempo.
O Turismo merece outras alianças. Talvez com a Cultura, porque esta é uma das principais motivações das movimentações turísticas. E era capaz de impor uma dieta mental.
O exemplo de Constância, que adjudicou ao seu Património o Centro Ciência Viva, o Jardim Horto de Camões, o Parque Ambiental de Santa Margarida e a Natureza , como alavancas de desenvolvimento turístico, merece ser seguido pelos decisores desta coisa que se chama actividade turística.
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